Sou Um Deus




     Anderson estava sentado à mesa, com um envelope, onde havia um laudo médico. Pegou a xícara de café e, com o rosto envolto do vapor de sua bebida, bebeu um pouco. Depois de muito olhar para o envelope, como quem enxergava o que estava escrito dentro, ele abriu lentamente rasgando com cuidado. Por fim, retirou o conteúdo e, com a mão no queixo, leu atentamente tudo. Em seguida, relaxou sobre a cadeira, fechou os olhos, dobrou a folha junto com o envelope e, sem cerimônia, rasgou em várias partes. Levantou-se, dirigiu-se até o banheiro, jogou os pedaços de papel no vaso, deu descarga, e, diante do espelho, olhou para si dizendo:
     - É isso aí! Não há como você escapar disso. É o seu destino.
     No dia seguinte, ele estava em uma ocorrência. Um incêndio tomou conta de um prédio, e havia uma criança ainda presa no apartamento dela. Não havia como ser resgatada, pois as chamas do apartamento de baixo cobriam sua janela. O jato de água da mangueira já estava fraco e não chegava ao local. Os pais da criança estavam desesperados. A mãe, escapando das mãos dos policiais, que estavam no local prestando apoio, tentou entrar no prédio mas foi expulsa pelo intenso fogo e teve que ser atendida por conta da queimadura que sofreu.
     - Vamos ter que evacuar a área! Ameaça de desabamento. - Gritou o responsável dos bombeiros.
     - Mas nossa filha está lá em cima! Nos ajude! - pediu desesperadamente o pai.
     - Lamento! Todos estamos em alto risco. Além do mais, nem sabemos se sua filha está viva. Do jeito que está o incêndio, acredito que não haja nada com...
     Antes que ele dissesse a palavra "vida", Anderson passou por eles rumando para o corredor de chamas na entrada do prédio.
     - Sargento, volte! Não cometa essa insanidade! - gritou o responsável.
     - Sinto muito, mas há uma criança a ser salva. - disse correndo.
     - Não me desobedeça!
     Em vão ele terminou a ordem. Anderson já havia entrado no prédio. O responsável dos bombeiros mandou todos se afastarem, enquanto tentava olhar por entre as chamas o desobediente subordinado numa mistura de raiva e tensão.
     Cada minuto que se passava, a apreensão aumentava. A imprensa já estava no local fazendo a cobertura ao vivo para os telejornais.
     - Acredito que ele não sairá vivo de lá. - lamentava um dos amigos do Bombeiro.
     Não tardou muito e Anderson saiu pela porta principal do prédio, correndo com alguém envolto num cobertor grosso.
Os seus colegas, alegres, correram em direção dele para ajudá-lo.
     - Seu doido! Insano! - gritava um deles enquanto corria até ele.
     No mesmo instante, ele baixou o cobertor. Era a menina. Estava sã, sem nenhuma queimadura, apenas com fuligem e tossindo muito. Os pais dela correram e a tomaram nos braços, ainda com o cobertor. Agradeciam muito quando algo saiu debaixo do cobertor. Era um cachorrinho.
     - O Pepeu estava com medo do fogo. Então o levei para debaixo da mesa, mamãe. Eu salvei o Pepeu! - disse a menina enquanto os pais e muitas outras pessoas próximas choravam emocionadas. Anderson saiu sem que as pessoas o notassem.
     Ele estava junto com os demais bombeiros, quando chegaram alguns repórteres já o filmando e com os microfones em cima dele.
     - Estamos ao vivo, com o Sargento Anderson, que, sem medo, adentrou no prédio em meio às chamas, resgatando uma criança. Ambos retornaram sem uma queimadura sequer. O que tem a dizer nosso grande herói?
     Anderson olhou surpreso para os repórteres.
     - Vamos, nosso herói, diga algo! - Insistiu outra repórter.
     Ele baixou a cabeça e deu um forte suspiro. Sua cabeça ficou refletindo a palavra "herói" até seu subconsciente. Por fim, levantou-se sob o olhar de admiração de todos ali.
     - Não! Não sou e nunca serei um herói!
     A expressão facial dos repórteres lentamente foi mudando. Estranharam as palavras de Anderson, que continuou falando.
     - Não pensem que sou um herói. Eu sou, na verdade, um deus. Só fiz o que fiz, porque sou um deus. A menina sim, ela é uma heroína.
     - Como assim? Um Deus? - indagou uma repórter.
     Mas ele não quis mais falar, e retirou-se.
     Nos noticiários, a notícia mais divulgada era uma só: Estão entre nós os Deuses?

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